Depois de 5 Quedas Seguidas o Ibovespa Repica? 3.146 Pregões Dizem que Não
Não. Em 3.146 pregões do Ibovespa entre 03/01/2014 e 04/09/2026, o dia seguinte a uma sequência de quedas subiu em 54,4% das vezes quando a sequência tinha 5 pregões — contra 51,5% de um pregão qualquer, sem condição nenhuma. A diferença de 2,9 pontos percentuais vem de 57 casos e está dentro do erro da própria medição. Quem compra "porque já caiu demais" está pagando corretagem por uma vantagem que a medição não consegue separar do acaso.
Esta medição foi feita sobre a base do Estrategista Trader (tabela "market_bars", fechamentos diários do índice Ibovespa), em 06/09/2026. Todas as consultas estão no fim do artigo.
Quantas vezes o Ibovespa cai vários pregões seguidos?
Em 3.146 pregões houve 799 sequências de queda, e mais da metade delas (51,3%) durou um único dia. A cauda encurta rápido: sequência de 5 pregões aconteceu 23 vezes em quase 13 anos, e a maior de todas foi de 13 pregões, terminada em 17/08/2023.
| Pregões seguidos de queda | Quantas vezes | % das sequências | Última vez |
| 1 | 410 | 51,3% | 29/07/2026 |
| 2 | 208 | 26,0% | 04/09/2026 |
| 3 | 103 | 12,9% | 08/07/2026 |
| 4 | 38 | 4,8% | 21/11/2025 |
| 5 | 23 | 2,9% | 21/07/2026 |
| 6 | 9 | 1,1% | 29/04/2026 |
| 7 | 4 | 0,5% | 15/07/2025 |
| 8 | 2 | 0,3% | 14/06/2022 |
| 11 | 1 | 0,1% | 18/08/2026 |
| 13 | 1 | 0,1% | 17/08/2023 |
Amostra: 799 sequências, Ibovespa diário, 03/01/2014 a 04/09/2026.
O primeiro uso desta tabela não é operacional, é de calibragem. "O índice caiu quatro dias, isso é raro" é uma frase que quase todo operador já disse. Quatro pregões seguidos de queda aconteceram 38 vezes, cerca de três vezes por ano. Não é raro: é o terceiro caso mais comum depois de um e dois dias.
O que é raro de verdade fica abaixo de 1% da distribuição: sete pregões ou mais aconteceram 8 vezes em 799 sequências. E note o buraco entre 8 e 11 — não existe sequência de 9 nem de 10 pregões nesta amostra. Isso não é uma propriedade do mercado, é o tamanho da amostra falando: com 8 eventos na cauda inteira, faltar um valor intermediário é o esperado, não um sinal.
Depois de N quedas, qual a chance de o próximo pregão subir?
Praticamente a mesma de sempre. A tabela abaixo condiciona o pregão seguinte ao número de quedas consecutivas imediatamente anteriores, e o resultado é notavelmente plano.
| Depois de N quedas | Casos | Retorno médio do dia seguinte | % de pregões de alta | Erro padrão da média |
| Nenhuma condição (base) | 3.146 | +0,052% | 51,5% | 0,026% |
| 1 queda | 701 | +0,042% | 51,5% | 0,055% |
| 2 quedas | 389 | +0,148% | 53,0% | 0,087% |
| 3 quedas | 209 | +0,113% | 52,6% | 0,099% |
| 4 quedas | 109 | +0,153% | 55,0% | 0,124% |
| 5 quedas | 57 | +0,055% | 54,4% | 0,191% |
| 6 quedas | 28 | +0,236% | 57,1% | 0,248% |
Amostra: Ibovespa diário, 03/01/2014 a 04/09/2026. Retornos brutos, sem custo.
Leia a coluna do erro padrão antes da coluna da média — é ela que decide se a linha significa alguma coisa. Depois de 4 quedas, a média é +0,153% com erro padrão de 0,124%: a razão entre as duas é 1,23. Uma diferença só começa a ficar difícil de atribuir ao acaso perto de 2, e mesmo esse limiar é generoso quando se testam sete condições de uma vez, como aqui.
Depois de 6 quedas o retorno médio salta para +0,236%, o maior da tabela. São 28 casos. Com menos de 30 observações, isto entra no artigo como observação, não como padrão: um único pregão de +3% dentro desses 28 desloca a média inteira em mais de 0,10 ponto percentual.
Por que a intuição de "já caiu demais" é tão convincente?
Porque ela acerta na direção e erra na magnitude, e a memória guarda a direção. O mercado brasileiro sobe em 51,5% dos pregões — então "comprei depois da queda e subiu" acontece na maioria das vezes independentemente da queda. A confirmação chega, o mecanismo causal é inventado depois, e o operador atribui à sequência de quedas um poder que pertence à taxa-base.
Este é o mesmo defeito que faz um método de sorteio de números parecer funcionar num mercado que sobe: qualquer regra de compra parece boa se o ativo subiu no período. A pergunta correta nunca é "quantas vezes subiu depois do meu sinal", é "quantas vezes subiu depois do meu sinal, comparado com quantas vezes subiu sem sinal nenhum". A tabela da seção anterior existe exatamente para responder à segunda.
Há um segundo mecanismo, específico da sequência: ela é definida por um corte que só existe depois do fato. Um pregão que fecha a −0,01% quebra a sequência; um que fecha a +0,01% também. Metade dos "quatro dias de queda" da sua memória tem um dia praticamente zerado no meio, que a definição binária transformou em queda ou em interrupção conforme a segunda casa decimal. Nenhum mecanismo econômico depende dessa segunda casa.
O que a medição realmente descartou?
Descartou a versão forte da tese, não todas. O que os números acima recusam é a afirmação operacional: "compre o índice depois de N quedas consecutivas e você terá vantagem mensurável no dia seguinte". Essa afirmação não sobrevive ao erro padrão em nenhuma das linhas.
O que a medição não testou, e portanto não descarta:
- horizontes maiores que um pregão — a tabela olha só para o dia seguinte;
- condicionamento por magnitude — cinco quedas de 0,1% e cinco quedas de 2% entram na mesma linha;
- condicionamento por regime — a mesma sequência em ano de alta e em ano de crise entra na mesma linha;
- ativos individuais — tudo aqui é o índice, e ação isolada tem dinâmica própria.
Declarar o que ficou de fora não é formalidade. É o que separa "medimos e não paga" de "não paga" — e é a diferença entre um artigo que envelhece bem e um que precisa ser apagado quando alguém testar o recorte que faltou.
A conclusão vale igual nos dois pedaços do período?
Não, e é isso que encerra a discussão. Partindo a amostra em 2014–2019 e 2020–2026, o efeito de "3 ou mais quedas seguidas" muda de sinal conforme a métrica escolhida — e as duas metades discordam entre si.
| Período | Casos com 3+ quedas | Média do dia seguinte | % que sobe | Média de um pregão qualquer |
| 2014–2019 | 238 | +0,061% | 54,6% | +0,067% |
| 2020–2026 | 195 | +0,193% | 51,8% | +0,038% |
Amostra: Ibovespa diário, 03/01/2014 a 04/09/2026, retornos brutos.
Na primeira metade, o retorno médio depois de 3 quedas (+0,061%) é menor que o de um pregão sorteado ao acaso (+0,067%) — o sinal tem retorno negativo em relação à sua própria taxa-base, embora a porcentagem de dias de alta seja alta, 54,6%. Na segunda metade acontece o oposto: a porcentagem de dias de alta cai para 51,8%, praticamente a taxa-base, mas a média sobe para +0,193% contra +0,038%.
Um efeito real não faz isso. Ele pode ficar mais fraco, pode encolher, pode desaparecer — mas não troca de métrica vencedora entre duas janelas contíguas do mesmo mercado. O que troca assim é ruído sendo lido por duas réguas diferentes: a porcentagem de acerto e a média são sensíveis a coisas distintas, e quando o efeito é pequeno, cada uma aponta para onde os poucos pregões extremos daquela janela mandaram.
Esse é o teste mais barato que existe contra overfitting, e é o que quase nunca aparece nos backtests de reversão publicados: partir a amostra em dois e exigir que a conclusão sobreviva nas duas metades. Aqui não sobrevive.
E as sequências realmente longas, de 7 pregões ou mais?
Todas as 8 subiram no pregão seguinte — e 8 casos não são um padrão. É a observação mais tentadora deste artigo e a que menos serve para decidir qualquer coisa.
| Início | Fim | Pregões de queda | Retorno do pregão seguinte | 30 dias depois |
| 01/08/2023 | 17/08/2023 | 13 | +0,37% | +2,88% |
| 04/08/2026 | 18/08/2026 | 11 | +0,90% | N/D |
| 03/06/2022 | 14/06/2022 | 8 | +0,73% | −5,40% |
| 17/09/2015 | 28/09/2015 | 8 | +0,40% | +3,80% |
| 17/07/2015 | 27/07/2015 | 7 | +1,78% | −2,09% |
| 14/04/2022 | 26/04/2022 | 7 | +1,05% | +3,45% |
| 07/07/2025 | 15/07/2025 | 7 | +0,19% | +0,81% |
| 13/05/2016 | 23/05/2016 | 7 | +0,03% | +4,52% |
Amostra: 8 sequências de 7 pregões ou mais, Ibovespa diário, 2014–2026. N/D = janela de 30 pregões ainda não completa na data da medição.
Oito de oito parece impressionante até você fazer a conta: se cada pregão sobe com 51,5% de probabilidade e os eventos fossem independentes, oito altas seguidas em oito tentativas aconteceriam por acaso em cerca de 1 caso a cada 130. Improvável, mas não raro o bastante para carregar uma decisão — e a amostra não foi escolhida antes, foi encontrada depois de olhar os dados, o que muda completamente a interpretação dessa probabilidade.
A coluna de 30 dias mostra o outro lado: duas das sete sequências com janela completa estavam negativas um mês depois, uma delas em −5,40%. O repique de um pregão, quando aconteceu, não teve relação com o que veio na sequência. Quem entrou pelo sinal e ficou, ficou por conta própria.
Quanto custa operar essa tese, e o que sobra depois do custo?
Todos os números deste artigo são brutos. Nenhum desconta corretagem, emolumentos, imposto ou o preço de execução — e essa omissão é deliberada, para mostrar que a tese já não se sustenta antes mesmo de o custo entrar.
O ponto importa porque o custo não é neutro em relação à estratégia. Uma tese de reversão de curtíssimo prazo opera muito: cada sequência de queda é um evento, e foram 799 em 13 anos. Uma tese de posição opera pouco. Duas estratégias com o mesmo retorno bruto terminam em lugares diferentes só pela frequência. Retorno bruto sem número de operações ao lado é um número incompleto — e é assim que a maioria dos backtests de reversão é apresentada.
A ordem correta de avaliação é: primeiro verificar se existe vantagem no bruto; se não existir, parar. Aqui paramos na primeira etapa. Simular custo sobre uma vantagem que já está dentro do ruído produziria um número mais preciso sobre nada.
A taxa de 51,5% de pregões de alta é grande ou pequena?
É pequena, e é toda a diferença. Em 3.146 pregões, 1.621 fecharam em alta, 1.524 em baixa e 1 exatamente igual ao dia anterior. A vantagem estrutural do índice sobre uma moeda honesta é de 1,5 ponto percentual.
Esse 1,5 é o que carrega todo o retorno de longo prazo do mercado — e é minúsculo comparado ao que qualquer sinal precisa entregar para ser detectável. Para distinguir 54% de 51,5% com alguma confiança, é preciso da ordem de milhares de observações. Nenhuma condição da tabela anterior tem mais que 701. É por isso que as linhas parecem promissoras e nenhuma resiste ao erro padrão: o tamanho de amostra necessário para provar o efeito é maior que a amostra que a própria condição gera.
Sequência de quedas serve para alguma coisa?
Serve como medida de contexto, não como gatilho. Saber que quatro pregões seguidos de queda acontecem cerca de três vezes por ano muda a leitura de uma frase como "o mercado está em queda livre" — não muda a decisão de compra.
Há um uso concreto e defensável: dimensionar expectativa de sequência adversa. Quem opera comprado no índice vai atravessar sequências de queda, e a tabela diz quantas e de que tamanho. Uma sequência de 5 pregões negativos aconteceu 23 vezes; de 6 ou mais, 17 vezes. Um operador que abandona o método na terceira queda seguida vai abandoná-lo cerca de três vezes por ano — não por falha do método, por desenho da distribuição.
Isso é uso de estatística para calibrar comportamento, que é diferente de usá-la para prever preço. O primeiro é robusto porque só depende da distribuição observada. O segundo exige que a distribuição futura repita a passada com precisão suficiente para pagar custo.
Quantas vezes o índice ficou abaixo do próprio topo?
93,9% do tempo. Em 3.147 pregões, o Ibovespa fechou abaixo do seu recorde histórico anterior em 2.955 deles. A pior distância até o topo foi de −46,82%.
Este número entra aqui porque contextualiza o anterior. A sequência de quedas é um evento curto e frequente; ficar abaixo do topo é o estado normal do índice. Foram 1.314 pregões (41,8% do total) a 10% ou mais do topo, 389 a 20% ou mais, e 88 a 30% ou mais.
Um operador que só se sente confortável quando o índice está no topo estará desconfortável em 19 de cada 20 pregões. A sensação de anormalidade que motiva a tese de repique é, na verdade, a descrição da condição usual do mercado.
O que muda para quem já usa esse gatilho?
Nada precisa ser desligado com pressa, mas a atribuição precisa mudar. Se a sua estratégia inclui "comprar após N quedas" e ela vem dando resultado, os números deste artigo dizem que o resultado provavelmente não vem daí — vem da taxa-base de 51,5% e do que mais existir na estratégia.
Isso é testável no seu próprio histórico, e é o teste que vale mais do que este artigo inteiro: separe as suas operações em dois grupos, as que tinham o gatilho e as que não tinham, e compare o resultado médio dos dois. Se forem indistinguíveis, o gatilho está apenas selecionando um subconjunto das suas operações, sem melhorá-las. É a mesma conta da tabela de condicionamento, feita sobre o seu dado em vez do índice.
Um diário de operações com o motivo de entrada registrado permite fazer essa separação em minutos. Sem o motivo registrado, não permite fazer nunca — e é por isso que o campo de motivo, que parece burocracia no momento da operação, é o que torna a estratégia auditável seis meses depois.
Procedência
- Base: tabela "market_bars" do Estrategista Trader, símbolo IBOV, timeframe 1d.
- Período: 03/01/2014 a 04/09/2026 — 3.146 variações diárias (3.147 fechamentos).
- Data da medição: 06/09/2026.
- Higiene: a série foi conferida antes do uso — maior queda diária −14,78%, maior alta +13,91%, desvio padrão 1,465%, nenhuma variação absurda acima de 20% em módulo.
- Consulta 1 — distribuição das sequências: numeração de blocos por diferença de "row_number()" sobre os pregões negativos, agrupada por tamanho.
- Consulta 2 — condicionamento: contagem corrente de quedas consecutivas por pregão, com "lead()" para o retorno do dia seguinte, agregada por número de quedas anteriores.
- Consulta 3 — taxa-base e drawdown: contagem de pregões de alta/baixa e máximo corrente do fechamento ("max() over (rows between unbounded preceding and current row)").
- Consulta 4 — estabilidade: a mesma consulta 2, particionada em 2014–2019 e 2020–2026.
- Consulta 5 — sequências longas: as 8 sequências com 7 pregões ou mais, com o fechamento do pregão seguinte e o do primeiro pregão após 30 dias corridos.
- Limite conhecido: retornos brutos, sem custo, imposto ou preço de execução. Fechamento a fechamento; não replica execução intradiária. As tabelas de sequências longas e de 6 quedas têm menos de 30 casos e valem como observação, não como padrão.
Quer testar essa separação no seu próprio histórico em vez de aceitar a média do índice? Crie sua conta gratuita e importe suas operações do Profit, Tryd ou MetaTrader — o Diário Quântico separa resultado por motivo de entrada.
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Full article in Portuguese. Summary of what was measured: 3,146 daily closes of the Ibovespa index (Jan 3, 2014 to Sep 4, 2026), taken from the Estrategista Trader market_bars table on Sep 6, 2026.
Key findings:
- 799 losing streaks. 51.3% lasted a single session; the longest was 13 sessions, ending Aug 17, 2023.
- Base rate: 51.5% of sessions close up (1,621 up, 1,524 down, 1 flat).
- Conditioned on prior down days, the next session rises 51.5% (after 1), 53.0% (after 2), 52.6% (after 3), 55.0% (after 4), 54.4% (after 5). Every mean is within roughly one standard error of the base rate.
- Split-sample test: in 2014-2019 the mean return after 3+ down days (+0.061%) was BELOW the unconditional mean (+0.067%). In 2020-2026 it was above (+0.193% vs +0.038%) but the hit rate fell to the base rate. The two halves disagree on which metric wins — the signature of noise, not edge.
- All 8 streaks of 7+ sessions were followed by an up day, but 8 cases is an observation, not a pattern; two of the seven with a complete window were negative 30 days later.
All returns are gross of costs, close to close. No held-out validation sample was used, so these numbers describe the sample and are not an out-of-sample test.