Segunda-Feira e o Pior Dia da Bolsa? Medimos 3.146 Pregoes do Ibovespa

Segunda-Feira é o Pior Dia da Bolsa? Medimos 3.146 Pregões do Ibovespa

Segunda-feira é o único dia da semana com retorno médio negativo no Ibovespa entre 03/01/2014 e 04/09/2026: −0,0254% em 627 pregões. Mas a razão entre essa média e o seu próprio erro de medição é 0,41 — ou seja, o número é indistinguível de zero, e a "segunda-feira ruim" não é um fato do mercado brasileiro, é uma frase que a amostra não confirma nem desmente.

O dia que aparece com o resultado mais forte é terça-feira: +0,1789% de média em 631 pregões, com razão 3,32 entre a média e o erro padrão. Esse número passa no teste estatístico usual — e este artigo é, em boa parte, sobre por que passar nesse teste ainda não é suficiente para operar.

Medição sobre a tabela "market_bars" do Estrategista Trader, fechamentos diários do índice Ibovespa, feita em 06/09/2026. Consultas no fim.

Qual é o retorno médio de cada dia da semana?

A tabela abaixo tem os cinco dias, e a coluna que decide é a última, não a segunda.

| Dia | Pregões | Retorno médio | % de pregões de alta | Erro padrão | Média ÷ erro padrão |

| Segunda | 627 | −0,0254% | 50,4% | 0,0626% | −0,41 |

| Terça | 631 | +0,1789% | 53,2% | 0,0538% | +3,32 |

| Quarta | 638 | +0,1075% | 52,7% | 0,0567% | +1,90 |

| Quinta | 624 | +0,0076% | 51,8% | 0,0594% | +0,13 |

| Sexta | 626 | −0,0097% | 49,5% | 0,0591% | −0,16 |

Amostra: 3.146 variações diárias do Ibovespa, 03/01/2014 a 04/09/2026. Retornos brutos, sem custo.

Três dos cinco dias — segunda, quinta e sexta — têm razão abaixo de 0,5 em módulo. Para esses, a leitura honesta é: a medição não distingue o retorno médio daquele dia de zero. Não é "quinta-feira é neutra"; é "com 624 observações não dá para dizer".

Sexta-feira tem a menor porcentagem de pregões de alta da semana, 49,5% — o único dia em que a maioria dos pregões fecha em baixa. E ainda assim o retorno médio da sexta (−0,0097%) é praticamente o dobro do da segunda em direção contrária ao que a porcentagem sugere. Porcentagem de acerto e retorno médio não medem a mesma coisa, e um dia pode ganhar numa régua e perder na outra. Quando as duas discordam, é sinal de que os poucos pregões extremos estão mandando no resultado.

Terça-feira passa no teste. Isso significa que terça-feira paga?

Não, por três razões, e nenhuma delas é sobre a qualidade do dado.

A primeira é o número de testes. Foram cinco dias comparados, não um. Quando se testam cinco hipóteses ao mesmo tempo, a chance de pelo menos uma passar por acaso no critério usual sobe de 5% para cerca de 23%. O ajuste padrão para isso — dividir o nível de significância pelo número de testes — eleva o limiar de razão de aproximadamente 1,96 para aproximadamente 2,58. Terça-feira, com 3,32, ainda passa. É honesto registrar isso.

A segunda é a escolha do que testar. Dia da semana é uma entre dezenas de partições calendáricas que alguém poderia ter escolhido: dia do mês, semana do mês, pré-feriado, vencimento de opções, primeiro pregão após reunião de política monetária. Se os cinco dias da semana são um teste que produziu um resultado, o conjunto de todas as partições que poderiam ter sido testadas é muito maior — e o ajuste correto teria que considerar as que não foram publicadas. Esse é um ajuste que ninguém consegue fazer direito, e é a razão pela qual efeitos de calendário aparecem com frequência na literatura e desaparecem quando testados fora da amostra original.

A terceira é o tamanho do efeito comparado ao custo. +0,1789% ao dia é o retorno bruto médio de uma terça. Isso é retorno de índice, não de operação: para capturá-lo é preciso entrar e sair, e cada entrada e saída custa corretagem, emolumentos e a diferença entre o preço que você vê e o que executa. Uma estratégia que opera 631 vezes em 13 anos precisa que o custo total por operação fique bem abaixo de 0,1789% para sobrar alguma coisa — e essa é uma conta que depende da sua corretora, não do mercado.

O efeito de terça-feira é estável ano a ano?

Parcialmente, e a instabilidade está no lugar que mais importa. Terça-feira teve média positiva em 11 dos 13 anos e superou a média dos demais dias em 10 deles — mas a magnitude varia de forma que a média agregada esconde.

| Ano | Pregões | Terça | Segunda | Demais dias |

| 2014 | 247 | +0,015% | −0,132% | +0,009% |

| 2015 | 246 | +0,097% | −0,400% | −0,084% |

| 2016 | 249 | −0,035% | +0,161% | +0,192% |

| 2017 | 247 | +0,290% | +0,234% | +0,055% |

| 2018 | 245 | +0,355% | −0,193% | −0,003% |

| 2019 | 248 | +0,180% | −0,070% | +0,103% |

| 2020 | 248 | +0,863% | −0,030% | −0,153% |

| 2021 | 247 | −0,133% | −0,047% | −0,022% |

| 2022 | 250 | +0,054% | −0,185% | +0,022% |

| 2023 | 248 | +0,152% | −0,018% | +0,069% |

| 2024 | 251 | +0,126% | +0,101% | −0,082% |

| 2025 | 250 | +0,155% | +0,128% | +0,113% |

| 2026 | 170 | +0,217% | +0,173% | +0,058% |

Amostra: Ibovespa diário, 03/01/2014 a 04/09/2026. 2026 é ano parcial (170 pregões até 04/09).

Olhe 2020: +0,863% de média nas terças, quase cinco vezes a média de todo o período, num ano em que os demais dias somaram −0,153%. Um ano com 51 terças e a volatilidade de 2020 pode deslocar sozinho a média de 13 anos. Removendo mentalmente 2020, a média das terças cai substancialmente — e o resultado agregado passa a depender de um ano específico, que foi o ano da maior queda diária da série (−14,78%) e da maior alta (+13,91%).

Um efeito de calendário que depende de um único ano extremo não é um efeito de calendário. É a marca daquele ano aparecendo na partição que por acaso o concentrou.

O ponto contrário, e ele é real: 2021 é o único ano em que terça-feira foi claramente negativa (−0,133%), e ainda assim ficou abaixo dos demais dias (−0,022%) — ou seja, em 2021 a terça foi pior que o resto. Se o efeito fosse mecânico, esse ano não existiria.

Tirando 2020, a terça-feira ainda passa no teste?

Não. Removendo um único ano dos treze, a razão da terça cai de 3,32 para 2,34 — abaixo do limiar de 2,58 exigido quando se testam cinco dias de uma vez. E acontece algo mais revelador: a quarta-feira passa a ter exatamente o mesmo resultado.

| Dia | Pregões (sem 2020) | Retorno médio | Erro padrão | Média ÷ erro padrão |

| Segunda | 579 | −0,0251% | 0,0536% | −0,47 |

| Terça | 581 | +0,1201% | 0,0513% | +2,34 |

| Quarta | 586 | +0,1215% | 0,0517% | +2,35 |

| Quinta | 574 | +0,0304% | 0,0555% | +0,55 |

| Sexta | 578 | +0,0130% | 0,0549% | +0,24 |

Amostra: 2.898 variações diárias do Ibovespa, 2014–2026 excluindo 2020. Retornos brutos.

Na amostra completa a terça é o dia destacado. Sem 2020, a quarta-feira tem média maior (+0,1215% contra +0,1201%) e razão praticamente idêntica. O "efeito de terça-feira" vira "efeito de meio de semana", e a diferença entre os dois dias vira zero.

Isso é decisivo. Um efeito que troca de dia quando você remove um ano de doze meses não identifica um dia — identifica o ano removido. Todo o excedente da terça sobre a quarta na amostra completa vinha de 2020, e 2020 é o ano da pandemia, com a maior queda e a maior alta diárias de toda a série.

Note também o que o corte não fez: a segunda continua negativa e continua indistinguível de zero (−0,47 contra −0,41 na amostra cheia). A ausência de efeito na segunda é a única conclusão deste artigo que sobrevive a todos os recortes testados — e ela é uma conclusão negativa.

E a segunda-feira, que é a crença mais popular?

Segunda-feira foi negativa em 8 dos 13 anos, e a distribuição desses anos conta uma história diferente da média. As segundas ruins estão concentradas em 2014, 2015, 2018 e 2022 — anos de estresse no mercado brasileiro. Nos últimos três anos completos da amostra (2024, 2025 e o parcial de 2026), a segunda foi positiva nos três: +0,101%, +0,128% e +0,173%.

A crença da "segunda-feira ruim" tem origem em estudos de mercados desenvolvidos das décadas de 1970 e 1980, e o mecanismo proposto era razoável: notícias ruins são divulgadas na sexta após o fechamento e no fim de semana, e o preço só as absorve na segunda. O mecanismo continua plausível. O que a medição diz é que, no Ibovespa desta janela, o efeito não é grande o bastante para se separar do ruído — razão de 0,41 é praticamente ausência de sinal.

Vale registrar o que isso não significa: não significa que o efeito nunca existiu, nem que não existe em outros mercados ou em outras janelas. Significa que quem repete a frase sobre o Ibovespa de 2014 em diante está repetindo algo que a amostra disponível não sustenta.

Por que a porcentagem de acerto e o retorno médio discordam?

Porque medem coisas diferentes, e a diferença entre elas é informação. Terça-feira sobe em 53,2% dos pregões e tem média +0,1789%; quarta sobe em 52,7% e tem média +0,1075%. A diferença de acerto entre os dois dias é meio ponto percentual, mas a diferença de retorno médio é de 66%.

Isso acontece porque o retorno médio é dominado pelos extremos e a porcentagem de acerto não. Um único pregão de +8% conta como um acerto na primeira régua e como oito pontos percentuais na segunda. Quando as duas discordam muito, a leitura correta é que o resultado depende de poucos pregões — e resultado que depende de poucos pregões é frágil por construção, mesmo quando o teste estatístico passa.

Sexta-feira é o exemplo mais claro: a menor porcentagem de alta da semana (49,5%) e um retorno médio praticamente idêntico ao da segunda. Os pregões de alta da sexta são, em média, maiores que os de baixa — o suficiente para compensar a maioria de dias negativos.

Para quem opera, a régua relevante depende do método. Estratégia com alvo e stop simétricos vive da porcentagem de acerto. Estratégia que deixa correr vive da média. Ler a tabela errada para o seu método é como medir temperatura com um relógio.

O que precisaria acontecer para essa medição virar uma estratégia?

Precisaria de três coisas que este artigo não tem, e vale listá-las porque são as mesmas que faltam na maioria das teses de calendário publicadas.

A primeira é um período de validação selado: separar, antes de olhar, uma fatia do dado que não participa da descoberta, e testar nela a regra descoberta no resto. Aqui todos os 3.146 pregões foram usados para encontrar o efeito. Não sobrou fatia limpa, então nenhum número deste artigo pode ser apresentado como validação.

A segunda é o resultado líquido, com custo real e execução simulada em preço executável, não em fechamento. Todos os retornos aqui são de fechamento a fechamento — um preço que ninguém executa.

A terceira é uma hipótese de mecanismo formulada antes da medição. "Terça-feira sobe" não é hipótese, é observação. Uma hipótese seria: "o fluxo de investidor estrangeiro se concentra no início da semana e pressiona o índice na terça". Essa afirmação é testável contra dados de fluxo, e testável de forma independente da série de preços que a originou. Sem isso, o que existe é um número que apareceu numa partição do calendário.

O efeito de calendário é diferente do efeito de horário?

Sim, e a diferença é de mecanismo, não de estatística. Efeitos de horário intradiário — abertura mais volátil que o meio do dia, por exemplo — têm mecanismo estrutural e observável: acúmulo de ordens durante a noite, leilão de abertura, digestão de notícia externa. Eles aparecem em praticamente todo mercado e toda janela porque a causa é o desenho do pregão.

Efeito de dia da semana não tem esse tipo de causa estrutural. Não existe nada no funcionamento da bolsa que distinga uma terça de uma quarta. Os mecanismos propostos são comportamentais ou institucionais, e ambos podem mudar sem aviso — se a origem era o comportamento de um tipo de investidor, basta esse investidor mudar de rotina para o efeito sumir.

Essa assimetria é a razão prática para tratar as duas famílias de forma diferente: um efeito estrutural merece ser incorporado ao desenho do sistema (evitar operar nos minutos de maior amplitude, por exemplo); um efeito de calendário merece, no máximo, ser monitorado.

O que fazer com essa informação hoje?

Duas coisas, e nenhuma delas é comprar terças.

A primeira é parar de usar dia da semana como justificativa. Se o seu diário registra "não operei porque era segunda", a medição diz que essa regra descartou 627 pregões com base num número indistinguível de zero. O custo de uma regra assim não aparece como perda — aparece como oportunidade não tomada, que é invisível em qualquer extrato.

A segunda é aplicar o mesmo teste ao seu próprio histórico, onde ele é muito mais informativo. A pergunta "meus resultados são diferentes por dia da semana?" é respondível com as suas operações e tem uma vantagem enorme sobre esta medição: se existir diferença, ela mede o seu comportamento, não o mercado. Trader que opera pior na sexta geralmente opera pior porque está cansado ou porque quer fechar a semana no positivo — e esse efeito é real, grande e corrigível, ao contrário do efeito de calendário do índice.

A conta é simples: agrupe suas operações por dia da semana, compare resultado médio e número de operações. Se a sexta tem o dobro de operações e metade do resultado, você encontrou algo que vale muito mais que +0,1789% de uma terça-feira média.

Procedência

Quer descobrir se o seu resultado muda por dia da semana? Crie sua conta gratuita, importe suas operações do Profit, Tryd ou MetaTrader e veja o resultado agrupado por dia — com o número de operações ao lado, que é o que falta na maioria das análises.

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Full article in Portuguese. Summary of what was measured: 3,146 daily returns of the Ibovespa index (Jan 3, 2014 to Sep 4, 2026), from the Estrategista Trader market_bars table, measured Sep 6, 2026.

Key findings:

All returns are gross, close to close. No held-out sample was reserved.

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